Sobre a Inglaterra, o Brasil e de como somos embalados pela imprensa

Fresh riots 'only a matter of time'

Ontem sentei pra dar uma olhada mais dedicada nas manifestações britânicas. De lá pra cá uma nova, o primeiro ministro britânico, David Cameron, anunciou as medidas previstas para os próximos dias. Cameron é um conservador, suspendeu suas férias na segunda por que no sábado Londres estava literalmente em chamas. Dentre as medidas anunciadas, a mais reivindicada pelos seus colegas de compota é a colocação do exército nas ruas, medida que nós brasileiros conhecemos bem, os moradores dos morros cariocas melhor ainda. Famílias cujos integrantes participaram, foram presos ou fichados por participar das ações rua poderão perder benefícios sociais. Centenas de pessoas terão suas caras estampadas em cartazes de recompensa pululantes na TV a partir de hoje. A criminalização imediata de algo que sequer o governo britânico sabe o que é.
A mais assustadora das medidas é o monitoramento das redes sociais. O governo prevê a criação de um grupo integrado pela polícia e membros do MI-5, o serviço secreto inglês, para acompanhar, interceptar, cortar ou suspender o acesso a redes sociais: “O dispositivo seria colocado em ação quando as autoridades tiverem informações de que estão planejando violência, desordem e criminalidade”, disse o premiê. Tá, mas e aí, como se descobre quem irá confeccionar os coquetéis molotovs dentre os mais de 27 milhões de usuários do facebook britânico, por exemplo? Monitorando todo mundo.
Essa ideia assusta e não é pra menos. Com a internet, o mundo inteiro teve, pela primeira vez na história acesso “irrestrito” a um valor humano fundamental: a comunicação. O memes contemporâneos são prova de que a explosividade da ação social reside na interação humana. Os benefícios ou malefícios dos usos da rede são unicamente exercício da comunicação e da interação.
A perda do controle é o medo que percorre a espinha de qualquer conservador. Para o governo inglês a sociedade britânica está “dividida” pelo desrespeito à autoridade dos pais e do poder público. Nisso, corre o boato de que Bill Braton, ex chefe de polícia de Nova York, criador do programa tolerância zero prestará consultoria aos britânicos. Uma “sociedade democrática” suprimindo a tolerância? Não é só contradição, é hipocrisia.
O início desse ano marcou o fim do EMA, sistema de subvenção à educação que concede bolsas de estudo aos jovens entre 16 e 18 anos. Não surpreende que cerca de 50% dos participantes nos levantes sejam menores de idade, como informou a Scotland Yard. O índice de desemprego juvenil é recorde. Dos jovens com menos de 25 anos, 951 estão desempregados, com um aumento de mais de 30 mil somente no último trimestre de 2010. Desses, 240 mil são jovens entre 16 e 17 anos. A taxa de desemprego é uma das maiores desde 1992, só perde para 2008, quando atingiu mais 1,5 milhão de ingleses.
Entre marolas e tsunamis a rainha assistiu de perto o maremoto grego e se preparou. A crise ecônomica afetou a Inglaterra diretamente e o principal reflexo (além do desemprego) foram as reformas previdenciárias. Assim como no Brasil a culpa é dos aposentados. As pensões estatais britânicas são as mais baixas da Europa, cerca de 30% da média salarial. Cerca de 2,5 milhões de aposentados vivem abaixo da linha de pobreza e 60% dos casais pensionistas vivem com renda inferior $15 mil Libras anuais (cerca de R$ 3.000 mensais). No ano passado os ingleses foram às ruas para impedir a reforma previdenciária que aumentaria a idade de aposentadoria de 65 para 66 anos. Segundo o governo britânico a medida geraria uma economia de 1,8 bilhão de libras por ano. Os bancos ingleses receberam do 950 bilhões de libras do governo para salvá-los das últimas tormentas econômicas. No último ano a média de reajuste dos salários ingleses foi de 2% no ano, enquanto a inflação ultrapassou os 5%.
Informações como essas invadiram os jornais desde 2008 na Inglaterra e no mundo. Agora elas dividem as capas com bairros em chamas, lojas saqueadas, levantes populares e isso é mera coincidência? O governo britânico e e mídia tradicional insiste em excluir motivos paras as manifestações. Mais 1700 pessoas foram presas em todo o país, 600 só em Londres. Imagens de TV e as capas dos periódicos estampam grupos de milhares em Londres, Manchester, Birmingham e mais sete cidades. O cinismo da grande mídia leva a uma conclusão: a Inglaterra é um país de afogados travestidos de polidez e pontualidade.
Os porta-vozes do governo falam agora de medidas de efeito, porque segundo eles, é o que os londrinos querem ver – LONDRINOS. Nas entrelinhas os revoltosos não são londrinos ou tampouco ingleses. Das fotos de “procurados” que circulam em caminhões-outdoors ambulantes pelas ruas de Londres se destacam “homens do sul da Ásia” e “jovens negros”. A cidadania é conceito obsoleto na democracia britânica e a xenofobia é a primeira febre do fascismo.
A tradução dos conflitos da mídia tupy lança tijolos na Babel inglesa. A arruaça, como denominou William Wack, gerou uma das fotos mais reproduzidas na semana, a da polonesa resgatada pelo romeno, do fogo provocado pelos arruaceiros que não reivindicavam nenhuma questão social, eram apenas criminosos e não ingleses. “Três dos quatro mortos eram imigrantes paquistaneses”. “Uma foto resumiu tudo”. Não ingleses.
É impossível olhar duas manchetes – uma cidade em chamas e um colapso econômico – no mesmo dia, no mesmo jornal e não traçar paralelos. O jornais já conseguiram “outonar” a primavera árabe. Esta semana já pode ser considerada a semana dos centenas de milhares. Domingo, 350 mil nas ruas em Tel Aviv. Segunda, a London Riot se espalha pelo país. Terça, 150 mil estudantes vão às ruas em Santiago, Chile. Nada disso é gratuito.
Talvez no falte algum foco, objetivo, mas jamais motivo. Há decadas que se repete que a ostentação e abundância escorre nas mãos de poucos e a miséria se reparte nas vidas de muitos e nós continuaremos acreditando que não há motivo.

Publicado em 12/08/2011, em Coisas e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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