Já viu a mensagem de Ano Novo do Alan Moore?

Alan Moore
Pena que eu só vi essa parada hoje, deveria ser o primeiro post do ano, com mérito e honras. Moore tem aparecido bastante por aí ultimamente. Principalmente depois da, merecida, espinafrada que ele deu no Frank Miller, após suas declarações sobre o Occupy Wall Street. Além disso tudo, me impressiona como Alan Moore tem concentrado os motivos que rodeiam o senso comum contemporâneo. Desde os impulsos anarquistas de V, que o despacharam de uma vez por todas ao mainstream, até seus recentes monólogos sobre religião vs. ciência, digno de um “homem anfíbio” que vive sua genialidade clássica numa realidade pós-humana.

“Olá a todos. Meu nome é Alan Moore e eu ganho a vida criando histórias sobre coisas que nunca existiram. Quanto às minhas crenças espirituais, elas remontam a um deus-serpente com cabeça humana do século II chamado Glycon, que foi revelada como sendo, na verdade, um boneco de ventríloquo, há quase dois mil anos. Encontrado em todo o Império Romano, Glycon foi a criação de um empresário conhecido como Alexander, o Falso Profeta, um nome terrível para se começar qualquer negócio. O boneco tinha corpo de jiboia de verdade, viva, e sua cabeça artificial tinha olhos grandes e um longo cabelo loiro. Glycon se parecia bastante, na verdade, com Paris Hilton, mas talvez mais adorável e com um corpo biologicamente mais verossímil. Visual à parte, meu interesse pelo deus-serpente é puramente simbólico. Na verdade, esse é um dos símbolos mais antigos da humanidade, que significa sabedoria, ou, de acordo com o etno-botânico Jeremy Narby, o próprio formato da espiral de DNA. Mas eu também estou interessado em ter um deus que é assumidamente um boneco de ventríloquo. Afinal de contas, não é assim que usamos a maioria das novas divindades? Podemos ler nossos livros sagrados e escolher uma passagem ambígua específica e uma interpretação em detrimento de outra e podemos fazer nossos deuses justificarem assim qualquer desejo imediato. Podemos fazê-los dizer o que quisermos. A maior vantagem de endeusar um boneco de meia de verdade e que, se as coisas começarem a fugir do controle, ou parecerem injustas, você pode jogá-lo na gaveta. E ele não tem opção a não ser ir para a gaveta. Bom, em nome de Glycon e eu, tenham todos um Ano Novo muito feliz.”

O texto foi veiculado na BBC Radio 4. A tradução vem lá do Omelete.

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Publicado em 04/01/2012, em Arte, Coisinhas, Variedade e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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