Joe Sacco, Charlie Hebdo e essa tal liberdade de expressão…

Sacco on Hebdo

Desde que o massacre de Paris aconteceu, o primeiro tiro de reação, principalmente da grande mídia, foi colocar a liberdade de expressão sob sua tutela, como uma refugiada correndo risco de morrer a qualquer instante. E, pra variar, o debate se ancorou por aí. Particularmente, ainda estou procurando uma relação direta entre uma agressão injustificável e o direito de expressão. Não me aparece em qualquer viés que o livre discurso esteja em risco, parece mais que a necessidade da afirmação de certas idéias é que de fato estão.
A capa dessa semana do Charlie parece isso, uma necessidade de não se render a um outro ponto de vista, que lhe garanta o direito de ofender. Sem fazer coro com aqueles que entortaram ainda mais a questão e pintaram o Charlie Hebdo de racista, xenófobo e etc… ainda me pergunto: qual a necessidade de insistir em travar uma cruzada, intransigente, agressiva e depreciativa contra um ideário distinto? Não a toa algumas figurinhas daqui se agilizaram em comparar-se aos cartunistas assassinados e adotaram a liberdade de imprensa como criança abandonada, afinal, o discurso é o mesmo dos franceses.
Acreditar que a liberdade do mundo todo está ameaçada por um punhado de loucos é insano, é como autorizar uma nova cruzada contra os islã. Grupos extremistas existem, suas mortes também, mas sua ameaça global não. Sua religião agora foi tornada algoz da liberdade como se não houvesse pelo menos mil anos de história política nesse meio campo. É mais fácil calar do que compreender, foi assim que agiram os malucos dos fuzis. Agora, troque calar por fazer chacota, dá no mesmo.
Esse episódio ainda não acabou, ele só inaugurou o ano, ainda tem muito o que falar e pensar sobre ele. Mas pra arrematar ao menos o sentimento que me causa, Joe Sacco, cartunista que reportou a Palestina em quadrinhos, sintetizou qual o sentimento mais enaltecido nesses dias de sangue: a ignorância. Segue aí o quadrinho e a tradução tradução logo abaixo.

joe-sacco-on-satire

SOBRE A SÁTIRA – por Joe Sacco

Minha primeira reação aos assassinatos no escritório do Charlie Hebdo em Paris não foi de uma provocação audaciosa. Não me deu vontade de sair por aí batendo em peito e reafirmando os princípios da liberdade de expressão.

Minha primeira reação foi de tristeza. Pessoas foram brutalmente mortas, dentre elas diversos cartunistas – minha tribo.

Mas junto com o pesar vieram pensamentos sobre a natureza de algumas sátiras do Charlie Hebdo. Enquanto pentelhar os muçulmanos possa ser tão permissível quanto cremos ser perigoso atualmente, nunca me pareceu como nada mais do que uma maneira insípida de usar a caneta.

Será que eu posso brincar disso também? Claro, eu poderia desenhar um homem negro caindo de uma árvore com uma banana em uma das mãos – na verdade, eu acabei de fazer isso. Eu tenho a permissão para ofender, certo?

Incidentalmente, você sabia que o Charlie Hebdo demitiu um jornalista – Maurice Sinet, procure por ele – por supostamente escrever uma coluna antissemita?

Então, com isso em mente, aqui está um judeu contando dinheiro nas entranhas da classe trabalhadora. E se você consegue entender a ‘piada’ agora, ela teria sido tão engraçada assim em 1933?

Na verdade, quando a gente ‘desenha uma linha’, estamos ‘cruzando’ outra também. Porque linhas em um papel são uma arma, e a sátira deve cortar na carne. Mas na carne de quem? E qual é exatamente o alvo? E por quê?

Sim, eu confirmo nosso direito de “tirar sarro” – então eis um desenho gratuito de um autêntico fiel fazendo o trabalho de Deus no deserto. Mas talvez quando a gente se cansar de andar por aí com o dedo indicador em riste possamos pensar no por quê do mundo estar do jeito que está.

E no que acontece com o muçulmanos neste nosso tempo e lugar que faz com eles não consigam desencanar de uma simples imagem.

E se a gente responder “Porque existe algo fundamentalmente errado com eles”- certamente existia algo fundamentalmente errado com os assassinos – então deixem-nos leva-los das casas deles até o mar… porque isso seria bem mais fácil do que ficar decidindo como poderíamos encaixar-nos uns nos mundos dos outros.

Roubado lá do Trabalho Sujo

Publicado em 18/01/2015, em Artigo, Coisonas e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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