Arquivo da categoria: Artigo

O real objetivo da PM no campus da USP

A saga Grandino Rodas continua na USP. O título aí de cima não é exagero, porque violência do policial do vídeo é só uma parte do problema. Essa história de “você não é aluno” segue o rumo até o “você não é daqui” e estoura no essa “cidade é pequena demais pra nós dois”. Be, vindos ao fascismo do século XXI, porém, com a mesma cara de sempre.

E a festinha de Natal do Occupy London, com o Thom Yorke e o 3D, hein?!

Massa essa interação de expoentes culturais como o Radiohead, Sonic Youth, RATM e o Massive Attack com os “Occupy”, vale a pena ouvir os comentários e as posições do Thom Yorke e do Robert ‘3D’ Naja, mas…. cara… que festinha de natal essa com com Thom e 3D nas pickups, hein?!
Lá no “OWS” quem deu as caras foi o Lee Ranaldo, com altas fotos…

Sai Fátima Bernardes, entra Patrícia Poeta: que rumo toma a Globo?

Azamiga Já rendeu até meme o troca=troca dazamiga com o Wliiam Bonner. Mas e o que isso significa lá na Grobo? Tem muita dona de casa que vai encarar a Patrícia Poeta com “a outra”, assim que ela sentar na bancada do JN. Umazinha qualquer destruindo um lar brasileiro e jogando pra escanteio uma mãe de três (gêmeos). Agora, o que rola de concreto é a Fátima Bernardes vai tentar alavancar de vez as manhãs globais, das quais a Ana Maria Braga já não dá mais conta e o programete “vida classe média saudável” que ensina a limpar a bunda, ainda não bateu o concorrente neo-pentecostal que quase sai no tapa por link ao vivo.
Mas fica um texto importante nessa hora e que leva a sério a parada. O Rodrigo Vianna, que hoje está na Record e é Colunista na Caros Amigos, publicou um post que dá esclarecida na questão e que não pega leve nas considerações:

Primeiro ponto: a Patrícia Poeta é mulher de Amauri Soares. Nem todo mundo sabe, mas Amauri foi diretor da Globo/São Paulo nos anos 90. Em parceria com Evandro Carlos de Andrade (então diretor geral de jornalismo), comandou a tentativa de renovação do jornalismo global. Acompanhei isso de perto, trabalhei sob comando de Amauri. A Globo precisava se livrar do estigma (merecido) de manipulação – que vinha da ditadura, da tentativa de derrubar Brizola em 82, da cobertura lamentável das Diretas-Já em 84 (comício em São Paulo foi noticiado no “JN” como “festa pelo aniversário da cidade”), da manipulação do debate Collor-Lula em 89.
[…]
Patrícia Poeta no “JN” significa que Kamel está (um pouco) mais fraco. E que Amauri recupera espaço. Se Amauri voltar a mandar pra valer na Globo, Kamel talvez consiga um bom emprego no escritório da Globo na Sibéria, ou pode escrever sobre racismo, instalado em Veneza ao lado do amigo (dele) Diogo Mainardi.

Confere inteiro lá no Escrivinhador, o blog do Vianna.

O novembro negro da USP

Se alguém ainda tem alguma dúvida quanto ao que está rolando na USP, eu dou uma certeza: é fascismo. Nada justifica as ações, o cerco e a permanência da polícia no Campus. Desde a assembleia que decidiu pela ocupação da reitoria foi possível ver a divisão entre grupos e centros acadêmicos. A votação apertada que decidiu pela greve, ou a minoria de 3 mil alunos que compareceu à assembleia não justifica nenhuma ação policial e para os “democratas” de plantão, isso é democracia. Enquanto isso ninguém cobra a obrigação do reitor da universidade em dialogar com os estudantes.
E as ações do reitor não param na omissão. Grandino Rodas já demitiu quatro dirigentes sindicais em atuação na USP, duas funcionárias e expulsou um aluno, pela participação nas atividades, com o claro objetivo de atacar a organização de qualquer tipo de oposição ao seu despotismo fascistóide. Em nota o Sindicato dos Trabalhadores da USP já aponta que o confronto apenas começou:

“O maior crime de Rodas é a criação de uma apartheid entre estudantes, os contra e os a favor da PM no campus, promovendo assim a criminalização e queimação da imagem dos estudantes.
Temos claro que, diante do ocorrido, esta universidade está conflagrando e o confronto apenas começou.
A USP agora exige que os estudantes sejam tipificados e indiciados por: formação de quadrilha, danos ao patrimônio, desobediência e crime ambiental.
Por tudo isso declaramos que este reitor não tem mais condições morais ou políticas de continuar à frente da Universidade.”

E a covardia da reitoria surpreende não só com a PM. Em entrevista a Rádio Estadão o reitor afirma que os os reitores, pró-reitores e assessores estão trabalhando em um “local secreto” já previamente preparado para este tipo de situação (ouça aqui na íntegra):

Rodas: “Nós estamos trabalhando… Nós temos vários lugares alternativos (…) Portanto hoje, nós todos, reitoria, pró-reitorias, todas já tem desde o ano passado, locais para que se possa trabalhar nesses casos específicos. Porque a universidade não pode parar. Nós estamos trabalhando em locais alternativos.
Entrevistador: “Não é bom nem revelar o local”
Rodas: “Não é que não é bom, não é necessário.”

O que não merece ser debatido a partir de agora é o mérito dos estudantes nas suas reivindicações. Se estudantes devem ou não fazer greve, essa é uma questão eles devem decidir. Se ocupa ou não, se vota ou não, a resposta é simples: o problema é deles. Mas o que nós não podemos admitir é mais um dia de polícia campus e a omissão do reitor.
O problemas políticos entre os alunos será um problema que eles tem a obrigação de carregar enquanto existir uma sociedade democrática. Aqueles que não concordam, compulsoriamente estão do lado do reitor e de suas atitudes totalitárias. Não querem enfrentar as diferenças e querem criar um mundo ao redor de seus umbigos ideológicos.
Dentre suas barbaridades cotidianas, Reinaldo Azevedo disse uma verdade, a “maioria” silenciosa da USP deve se manifestar. Não é hora de ficar em cima do muro. Aliás, o muro tem dono, a imprensa calhorda já o comprou e se aproveita dele pra rotular a “minoria baderneira”. E logo logo vai alugá-lo, pra servir de alvo de tiro pra PM. Pra quem quiser aprender, o G1 deu uma aula de como fazer jornalismo tendencioso. Você publica o vídeo da PM e transcreve os vídeos dos estudantes (assista aqui).
Pra quem quiser informação decente a respeito da USP, o Jornal Brasil de Fato tá fazendo uma cobertura digna. Segue o link.

Nelson Motta e a “biografia fraudulenta” de Glauber Rocha

Tô impressionado com o tamanho da encrenca em que o Nelson Motta se meteu. Na real espero que seja, porque não dá prum cara ser contradito sumariamente e passar impune. O Terra Magazine mandou uma matéria imensa hoje, com entrevista de vários amigos e pessoas próximas a Glauber que destilaram o veneno contra “A primavera do Dragão”, “biografia” de Glauber escrita por Motta. As histórias de “A primavera do dragão” são cravadas de adjetivos: “mentirosas”, “folclóricas”, “falsas”, “inverídicas” e “ficcionais”, disparados por amigos de Glauber ouvidos por Terra Magazine. O Motta respondeu em nota ao site, minimizando: “Erros não afetam narrativa do meu livro”.
Quero ver no que vai dar. O cara já se comprometeu em reescrever o livro e editora vai retirar de circulação os que estão a venda. Dá uma olhada nas matérias pra ver o tamanho do rolo…

Eu suponho que esses fatos que têm uma conotação política e pseudo-revolucionária, apontados no livro deste senhor, não passam de uma invenção, quem sabe captada numa sessão espírita, ouvindo Glauber Rocha. Ele deve frequentar alguma casa de baixo espiritismo para escrever os livros que edita – ironiza o historiador.
Fernando da Rocha Peres (amigo de Glauber)

Douglas Rushkoff: “Occupy não é um movimento, mas um protótipo”

OWS Journal O que é o Occupy, a pergunta ainda persiste. Talvez persista porque de fato nós não o entendemos. E além da nossa incredulidade diante da novidade, diariamente, qualquer levante contra a ordem é recebida com um bombardeio de demérito e depreciação por parte da nossa tão democrática imprensa. O que pouca gente – pelo menos aqui do Brasil – tem feito, é tentar entender ou acompanhar o que tá rolando nas barracas da Wall Street nos últimos 45 dias. Segundo o Ocupationalist o movimento tem aumentado. Uma série de atividades multidisciplinares tem rolado diariamente. Debates, ideias, construções, compartilhamento de dados e informações fazem parte do cotidiano do movimento. Douglas Rushkoff, pensador de mídia estadunidense fez a sua leitura do “protótipo” que o OWS parece ser. Não sei se eu chegaria tão longe no hype, ou quem sabe não é hype. É possível que de fato não consigamos acompanhar nem entender o que se passa em Nova Iorque. Tá aí o texto na íntegra, a tradução veio lá do Implosão, do original publicado na CNN. Tire suas conclusões…

“Occupy Wall Street não é um protesto, mas um protótipo” por Douglas Rushkoff

Quanto mais familiar torna-se algo, menos ameaçador nos parece. É por isso que as simpáticas imagens de estudantes universitários marchando pela Broadway ou garotos sem camiseta tocando tambores são parte do que vemos do movimento “Occupy Wall Street”. Os corretores da bolsa observam por detrás das barricadas da polícia, e o que parecia ser mais um movimento de protesto se estende por um dia, uma semana, um mês.

Mas “Occupy” é qualquer coisa menos um movimento de protesto. É o que tem dificultado às agências de notícias expressar ou mesmo discernir a “demanda” crescente de legiões de participantes do Occupy pelo país, ou até pelo mundo. Como acontece com todo mundo no planeta, os ocupantes podem querer que muitas coisas aconteçam e que outras coisas parem de acontecer, mas a ocupação não é sobre exigências. Eles não querem nada de você, e não há nada que você possa fazer para detê-los. Isto é o que faz Occupy tão estranho e promissor. Não é um protesto, mas um protótipo de um novo estilo de vida.

Mas não me levem a mal. Os ocupantes não propõem que vivamos todos na calçada e durmindo sob abrigos precários. De qualquer forma, a maioria de nós não teria a coragem, vigor ou força moral pra dar um duro tanto quanto esses caras estão dando. (Sim, eles estão dando um duro maior do que qualquer mineiro ou agricultor pudessem entender.) Os acampamentos de sobrevivência urbanos que eles estão montando pelo mundo na realidade são mais como congressos, ou pequenas zonas de experimentação de ideias e comportamentos, que talvez mais tarde implementaremos em nossas comunidades, e do nosso jeito.

Os ocupantes estão forjando uma robusta micro-sociedade de grupos de trabalho, cada um descobrindo novos pontos de vista – ou revivendo alguns antigos – para os problemas vigentes. Por exemplo a Assembleia Geral, uma maneira flexível de discussão em grupo e construção de um consenso. Mas, ao contrário das regras parlamentares que promovem o debate, a diferença e a decisão, a Assembleia Geral dá vida a novos elementos. A coisa toda é orquestrada pelos simples gestos das mãos. Os tópicos são priorizados por importância, e todo mundo tem a oportunidade de falar. Até depois dos votos as exceções e objeções são incorporados como emendas.

Essa é apenas uma razão pela qual os ocupantes parecem incompatíveis com as ideias atuais sobre a demanda política, ou a luta da direita contra a esquerda. Eles não estão interessados em debater (ou o que os filósofos do Renascimento chamavam de “dialética”), mas sim no consenso. Estão trabalhando para ir além do sistema binário de operação política, um sistema do século XIII, onde o vencedor leva tudo. Como os desenvolvedores de software, eles estão aprendendo a “lançar antes e lançar sempre”.

Do mesmo modo, os ocupantes adotaram a solução de internet do Free Network Foundation, que ergueu “Freedom Towers” nos acampamentos de Nova York, Austin e em outros lugares, através das quais as pessoas podem acessar Wi-Fi gratuito, sem censura e autenticado. Quando esta tecnologia chegar às nossas comunidades, o que acontecerá com os provedores de internet corporativos, ninguém sabe.

Os ocupantes têm formado grupos de trabalho para enfrentar uma miríade de problemas econômicos e sociais, e a maioria dos acampamentos têm servido como laboratórios de soluções para o que vem por aí. Um grupo está estudando uma moeda complementar para ser utilizada, em princípio, dentro da rede de comunidades do movimento. A eficácia disto será testada e melhorada pelos ocupantes a fim de prover uns aos outros com bens e serviços, antes que ela seja liberada aos outros ao redor do mundo. Outro grupo está incitando as pessoas a tirarem seu dinheiro dos bancos no próximo dia 5 de novembro, e fazer a transferência para bancos locais ou cooperativas de crédito.

Concorde ou não com o que precisa mudar na sociedade moderna, nós precisamos pelo menos entender que os ocupantes não são um mero movimento político, nem ao menos garotos preguiçosos dando uma desculpa pra não trabalhar. Pelo contrário, eles sabem da inutilidade de usar as ferramentas de uma sociedade competitiva, onde o ganhador leva tudo, e que seria mais adequado usar as ferramentas de ajuda mútua. Esse não é um jogo onde alguém ganha, mas uma forma melhor de jogar, em que mais gente se une e o jogo dura mais tempo.

Eles triunfarão na medida em que vários modelos que estão usando como protótipos sobre a calçada permeiem desde aqueles que estão trabalhando nas soluções até o conforto de nossos lares e escritórios. Pois se chegarmos a adotar ou ao menos considerar opções tais como produção e comércio local, cooperativas de crédito, acesso livre às tecnologias de comunicação e uma democracia realmente sustentada por um consenso, então todos nós nos converteremos em ocupantes.

‘Eu não estou me movendo’ o minidoc do @Occupy Wall Street (legendado)

Pra quem ainda não viu o minidoc do @OWS, taí denovo e agora legendado. Vale a pena…

[MiniDoc] Como se fabricam marginais e a onda facistóide que avança no país…

Tem um clima facistóide se espalhando pelo país. Ontem a PM entrou em conflito contra estudantes da USP, quando deteve, dentro do campus, três estudantes que estariam fumando maconha. Desde o início da semana camelôs tem suas manifestações “contidas” pela polícia, pelo direito de manter sua feira durante a madrugada na região do Brás, em São Paulo.
A marginalização e a crimanlização de condutas alternativas à do estado são evidentes. Na alegada democracia brasileira a ordem é temperada com gás de pimenta, como diria Jorge du Peixe. Seja por uma alternativa econômica ou por uma modo de vida que fuja das convenções sociais moralmente aceitas, o indivíduo resistente é criminalizado com a conivência apática da sociedade e o referendo canalha dos meios de comunicação do establishment burguês.
Um consenso reacionário de leis torcidas em favor do poder se espalha de modo assustador pelo país. Seja nas atitudes dos governos ou na aprovação alegadamente positiva e necessária da população. Mais do que dilacerar nossa falsa democracia, essas atitudes vão eliminando aos poucos, a partir das liberdades individuais, pensamentos questionadores e vislumbres de uma nova sociedade.
Segue abaixo um exemplo que rolou esse ano, na Praça Sete em Belo Horizonte, quando os artesãos, chamados de “Hippies” pela imprensa, forma escurraçados da praça. Sob a alegação de cumprimento da Lei Orgânica do município, que proíbe o comércio nas ruas sem licença, Prefeitura e Polícia Militar “higienizaram” o centro de BH detento artesãos, apreendendo e destruindo seus pertences e produtos. Cabe m bom debate nessa questão, que vai desde a definição de patrimônio cultural, do reconhecimento único da produção material legalizada e industrializada, até a liberdade individual de ocupação da cidade e seus espaços públicos. Mas o que se destaca é a utilização da lei como dispositivo torto de aplicação da ordem, nos moldes da burguesia e de seu lacaio estado. Não resta adjetivo senão facista, pruma atitude que pretende enquadrar a sociedade em padrões que, de longe, não tem nada a ver com a realidade.
Infelizmente não achei o canal original do cara que produziu o doc, Rafael Lage. Mais informações estão no blog da produção, Beleza da Margem. Ficam aí os créditos. Na sequência há dois vídeos menores, mostrando as ações policiais nos dias em que a praça foi sitiada. Até um traseunte foi detido por discordar da ação policial, com a mais facista das alegações: desacato à autoridade.

Cadê a sua tinta vermelha?

O filósofo esloveno, Slavoj Zizek deu as caras no meio do Occupy Wall Street esta semana e deixou um discurso histórico que circula há alguns dias na net pululando nas reproduções, republicações, comentários, opiniões e principalmente, alimentando o problema que gerou o discurso. Seguindo a lógica de Zizek, nós estamos escrevendo seu próprio discurso em tinta azul, cadê sua tinta vermelha? Já sabemos que estamos fadados à desgraça, o sistema econômico está em colapso e desesperado em busca de novas formas de sobrevivência, sabemos disso. Wall Street está ocupada por conta disso. A Grécia está em greve, o Chile teve as ruas tomadas e o Brasil teve, até agora, um dos anos mais ativos em greves e mobilização social da recente história, tudo porque o sistema econômico não dá mais conta de sobreviver e tampouco nos manter vivos.
É hora de pensarmos no que vamos viver daqui para frente, no que vamos construir, no “o quê” queremos e como queremos. E dessa vez não podemos cometer o erro de delegar isso, é hora de produzirmos nossa própria tinta vermelha e escrever nossa nova história através dela.
Confere aí embaixo o discurso de Zizek na íntegra, que o próprio filósofo enviou à galera da Boi Tempo Editora e foi traduzido por Rogério Bettoni.

“Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.
Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.
Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.
Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?
Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…
Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.
Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…
Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?
Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.
Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.”

“Marx estava certo”

Karl Marx O velho barbudo, mais uma vez… A frase, desta vez, é do economista americano Nouriel Roubini, professor na Universidade de Nova York e aponta para atual crise global. Parte de um conceito simples e preciso, o capitalismo é um sistema endêmico de crises retroalimentadas. Ele chega a uma máxima, da maneira como está não vai longe, mas ainda não é o fim, apesar de 2012 já estar na porta. Roubini aponta pruma possível solução, ainda que paliativa, o estímulo fiscal. Mas cada vez mais o contexto esclarece a única saída viável, a distribuição de renda. Roubini é citado como “Dr. Catástrofe” por ter previsto, em 2008, a atual crise. Apesar dele afirmar que a ordem econômica mundial está em crise (está de fato) suas perspectivas ainda são otimistas. Outra máxima que se avizinha da concretização é a do Socialismo ou Bárbarie, como pregavam os franceses do pós-guerra, a humanidade em mais uma encruzilhada. Meu medo é de que escolhamos a barbárie. Confira a matéria na íntegra no site da Carta Maior.

%d blogueiros gostam disto: